RESISTÊNCIA Objetivo de cuidar da memória popular permanece, assim como o cuidado com a construção coletiva.
Sofia Maria Barbosa de Paula tem 17 anos e se lembra bem de como era a vida antes da barragem da Vale romper em sua comunidade, no Córrego do Feijão, em Brumadinho. “Como seria a vida sem isso? Aqui tinha seus defeitos, mas você saía na rua e todo mundo conhecia todo mundo, cumprimentava todo mundo… Tinha gente que pensava em sair daqui antes, que reclamava muito, mas o antes era muito bom. E nunca mais vamos conseguir ter aquela vida”, lamenta a jovem.
Ela conta que adora fotografias e fez questão de ajudar a mãe, Carmen Sandra Barbosa de Paula, conhecida como Sandrinha, a escolher, com outras mulheres da comunidade, novas fotos para compor a segunda edição da exposição “Florescer em meio à lama: memórias que brotam”, que vai acontecer do dia 23 ao dia 25 de janeiro de 2026, no mesmo local da anterior: a Sorveteria da Silvia, na pracinha central do Córrego do Feijão.
Nos preparativos da novena de Natal, mãe e filha recolheram fotos de família com algumas mulheres da comunidade. O processo de juntar, escolher, contar e lembrar continuou semanas depois, com pessoas entrando e saindo da casa delas para ajudar na seleção. Em meio à alegria de se reconhecer e reconhecer tantos rostos familiares, às vezes vinha a tristeza de perceber as mudanças que não foram escolhidas. “Gente, olha essa aqui! Tanta gente que já foi embora, nossa senhora”, dizem, lembrando de pessoas que venderam suas casas para a mineradora e foram viver em outro local.
Silvia Aparecida Camila Oliveira, dona da sorveteria que vai sediar novamente a exposição, fica emocionada de ver que aparece em várias das fotos. Ela cita nomes de várias pessoas, relembra casos e se sente feliz e triste ao mesmo tempo ao revisitar lembranças de sua infância e juventude no Córrego do Feijão. Ela lamenta a falta de indenizações devidas, como no caso dela, que tem uma casa diretamente atingida pela poeira e contaminação da mineradora – e a ausência de respostas, além da tristeza de ver tantos vizinhos queridos se mudarem dali. Silvia cuida da mãe, idosa, que sente falta de amigos e filhos que saíram da comunidade.
Sandrinha reforça: “A ideia da exposição é não deixar que o Córrego seja apagado. Porque tirando essas fotos, não tem muita coisa mais do Córrego de antigamente. A paz, a liberdade que a gente tinha aqui, acabou. Diferente do que às vezes a mídia divulga. Eu não falo que o Córrego do Feijão está sendo restaurado. Eu falo que está sendo transformado. O que é que o Córrego está virando? Será que eu quero morar num lugar que é só para ser visitado?”, questiona a moradora.
A exposição, promovida pelas moradoras e pelo Instituto Cordilheira, será aberta no dia 23, às 16h, e fica em cartaz até dia 25, na Sorveteria da Sílvia. No dia 23, durante todo o dia, haverá a pintura de um mural coletivo, resgatando a memória e a força popular, com a condução da artista Anna Göbel.
Veja aqui como foi a I Exposição realizada em janeiro de 2025







